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Pau que bate em Chico...
por Gustavo Grohmann
15/08/2006

Em qualquer segmento ouve-se falar em ética, principalmente da boca daqueles considerados “bons-moços”. Como o futebol é um dos assuntos mais abordados nesse país, tais figuras também dão o ar da graça no mundo dos boleiros.

Quem é que nunca viu um jogador beijar o símbolo do clube no domingo à tarde, fazer juras de amor e negar a quebra de contrato na mesa-redonda à noite e na semana seguinte trocar de clube? E os técnicos então? "Useiros e vezeiros" nesse assunto.

Não encaro a opção de cada um como um problema, contanto que os contratos sejam respeitados. É uma situação normal em qualquer categoria profissional. O que me incomoda é o discurso de determinados personagens, que estufam o peito para defender ética e moral e acabam tendo atitudes como a daqueles outrora criticados.

O meia Ricardinho sempre foi um exemplo de jogador ético e de boa índole. Tanto que em sua primeira passagem pelo Corinthians, após o entrevero com Marcelinho Carioca, o Pé-de-Anjo saiu bem mais chamuscado, principalmente por seu histórico de jogador polêmico.

Algum tempo depois, o “bom-moço” Ricardinho trocou o Timão pelo São Paulo. Foi taxado como mercenário pela massa corintiana, mas a imprensa continuou ao seu lado. No Tricolor, assinou um contrato, por livre e espontânea vontade, contendo uma cláusula que o impedia de negociar com clubes brasileiros pelo período de um ano, caso saísse do Morumbi antes do término do compromisso. Se quisesse voltar ao Brasil antes dos 365 dias previstos em contrato, teria de pagar uma multa de dois milhões de reais.

Seis meses depois de rescindir seu vínculo com o São Paulo, o “ético” Ricardinho voltou da Inglaterra para o Santos FC e entrou na justiça do trabalho contra o Tricolor, tentando jogar pelo clube da baixada antes do tempo previsto em seu antigo contrato (firmado por livre e espontânea vontade) e sem pagar nada ao time do Morumbi.

Voltou ao Corinthians no início de 2006 e hoje está novamente no grupo dos “indesejados” pela fiel torcida. O jogador não disse a que veio e foi afastado, pois negocia sua saída do clube.

Do lado dos treinadores, Émerson Leão, com suas tentativas de discurso burilado, é outro que batia no peito e dizia sempre cumprir seus contratos até o final, por considerar uma atitude ética. Puxe pela memória, lembre bem e veja como não estou enganado. Em 2005, quando dirigia o São Paulo, abandonou o barco no meio da Copa Libertadores para “ajudar um amigo” em um time japonês. Meses depois estava sentado no banco do Palmeiras. Há pouco mais de um mês, assumiu o comando técnico do São Caetano e após a demissão de Geninho, assumiu o Corinthians. Mas não era ele que adorava dizer que cumpria seus contratos até o final? O que houve?

Como disse, considero de uma normalidade absoluta a troca de clube, seja pelos treinadores ou jogadores (sempre respeitando a assinatura em contrato). Cada um tem o direito de escolher o que considera melhor para sua vida. Só não acho certo o discurso de ética e moral, muitas vezes condenando esse ou aquele, se na prática não for válido. E a imprensa complacente, ao lado dos próprios envolvidos, é uma das culpadas.

O mais engraçado é que quando Vanderlei Luxemburgo rompe um contrato e se apresenta em outro clube é taxado de mercenário, traidor e ingrato. Ora amigos, “pau que bate em Chico, bate em Francisco”. Ou estou errado?

Fale com o colunista: g.grohmann@ig.com.br

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